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Mais da metade das famílias não lê para as crianças, aponta pesquisa

Bahia CotidianoBahia Cotidianomaio 7, 2026 337 Minutes read0

Um estudo internacional realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e divulgado na terça-feira (5) revela que 53% das famílias brasileiras não costumam ou raramente leem livros para as crianças de 5 anos que estão na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Nessas regiões, apenas 14% dos responsáveis praticam a leitura compartilhada entre três e sete vezes por semana, enquanto a média global para essa atividade é de 54%.

As informações fazem parte da pesquisa intitulada Aprendizagem, bem-estar e desigualdades na primeira infância em 3 estados brasileiros: Evidências do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS).

O coordenador da pesquisa e membro do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ), Tiago Bartholo, enfatiza que a situação é alarmante mesmo nas classes sociais mais altas, onde o índice de leitura frequente é inferior a 25%.

Segundo o pesquisador, a falta de clareza sobre a importância da leitura compartilhada como parte fundamental da alfabetização infantil é um dos principais problemas. Além disso, essa ausência de vínculo pode prejudicar o desenvolvimento das crianças.

 “Essa informação ainda não está devidamente disseminada. São momentos muito importantes para o bem-estar e para o desenvolvimento das crianças.”

Esses dados indicam a necessidade de expandir políticas intersetoriais e programas que apoiem a parentalidade, buscando fortalecer os laços entre as famílias e as instituições de educação infantil.

“Sempre buscamos uma abordagem que considere família e escola como um conjunto, visando potencializar o bem-estar e o desenvolvimento infantil”, afirma Tiago Bartholo.

Radiografia do estudo

A pesquisa internacional focou apenas nos estados do Ceará, Pará e São Paulo devido a limitações orçamentárias.

Ela abrange três áreas principais do desenvolvimento infantil aos 5 anos, avaliando dez domínios específicos. As áreas incluem:

  1. Aprendizagens fundamentais (conhecimentos básicos em linguagem e raciocínio matemático)
  2. Funções executivas (processos que envolvem autorregulação para controle da atenção, impulsos, adaptação a regras e avaliação da memória de trabalho)
  3. Habilidades socioemocionais (compreensão pessoal e interpessoal, construção de relações sociais como empatia e confiança)

No total, foram analisadas 2.598 crianças em 210 escolas, sendo que 80% delas eram públicas e 20% privadas nas três unidades federativas.

A metodologia aplicada no IELS-2025 envolveu a coleta individual de dados através de atividades lúdicas adaptadas à faixa etária das crianças.

A pesquisa também coletou percepções de pais e professores sobre aprendizagens, desenvolvimento e comportamento infantil por meio de questionários específicos.

Os resultados inéditos – com abrangência significativa – podem servir como base para o Brasil desenvolver políticas públicas eficazes voltadas à primeira infância e ajustar estratégias nas áreas de saúde, educação e proteção social.

Habilidades iniciais: literacia e numeracia

No contexto do IELS, entende-se por literacia emergente o desenvolvimento inicial das habilidades linguísticas (tanto orais quanto vocabulares) antes do início formal da alfabetização.

A análise revelou que a pontuação em literacia foi superior à média brasileira com uma média de 502 pontos, ligeiramente acima dos 500 pontos registrados internacionalmente.

A variação entre diferentes níveis socioeconômicos foi mínima nesse domínio, com resultados próximos ao nível médio elevado.

A coordenadora Mariane Koslinski aponta que uma possível explicação para esse resultado positivo pode ser atribuída às recentes políticas públicas implementadas no país.

“O Brasil obteve bons resultados em literacia emergente devido às diversas iniciativas voltadas à alfabetização e à formação docente”, acredita a pesquisadora.

A pesquisa também aborda o conceito de numeracia emergente, que envolve as primeiras noções matemáticas adquiridas pelas crianças, como contagem básica e compreensão espacial.

No entanto, ao contrário das habilidades linguísticas, o desempenho brasileiro em numeracia emergente ficou abaixo da média internacional com uma pontuação de 456 pontos – 44 pontos abaixo dos 500 pontos globais.

A discrepância nos resultados entre as crianças analisadas é evidente. Os dados mostram desigualdades já presentes ao final da pré-escola em relação à numeracia.

Enquanto 80% das crianças oriundas de contextos socioeconômicos altos dominam o reconhecimento de números, esse percentual diminui para 68% entre aquelas provenientes de grupos menos favorecidos economicamente.

Recorte racial e de gênero

No estudo promovido pela OCDE, o Brasil se destacou por realizar um recorte racial nas análises dos resultados educacionais, avaliando seu impacto no aprendizado e no bem-estar infantil.

Os achados evidenciam desigualdades relacionadas ao gênero, raça e nível socioeconômico acumuladas ao longo do tempo.

Crianças meninos pretos ou pardos que pertencem a famílias com menor renda enfrentam desafios significativos nas aprendizagens desde os primeiros anos escolares.

Crianças negras provenientes de famílias beneficiárias do programa Bolsa Família apresentam os menores índices em quase todas as dimensões estudadas, especialmente nos domínios relacionados à memória operacional e matemática.

A disparidade no Brasil torna-se ainda mais evidente quando se compara crianças brancas com crianças pretas. As primeiras têm uma vantagem média de 17 pontos em linguagem e uma diferença alarmante de 40 pontos em numeracia.

Telas e aprendizado

A utilização de tecnologias digitais entre crianças pequenas nos estados investigados foi amplamente observada pelo estudo IELS-2025 pela primeira vez.

Ainda que o levantamento não especifique horas diárias dedicadas às telas, os cuidadores informaram que 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais diariamente (como computadores ou celulares), excluindo televisão.

Esse percentual brasileiro supera a média dos países participantes do IELS onde apenas 46% relataram uso diário desses dispositivos digitais por suas crianças.

No Brasil, apenas 11,4% das crianças pesquisadas nunca ou raramente utilizam telas digitais.

Os dados ressaltam a relevância do uso equilibrado dessas tecnologias sob mediação adequada.

Tivemos observações feitas pelo pesquisador Tiago Bartholo sobre como as crianças que utilizam telas diariamente tendem a apresentar desempenho médio inferior na compreensão leitora e na matemática quando comparadas às demais.

“Uma coisa é uma criança utilizar telas por meia hora diariamente; outra completamente diferente é usar essas tecnologias por três ou quatro horas todos os dias. E sabemos que esse comportamento ocorre.”

Outro dado relevante destacado pelo estudo foi sobre a baixa frequência no engajamento em atividades educativas através desses dispositivos no Brasil.
Cerca de 62% das crianças raramente ou nunca realizam atividades educativas utilizando computadores ou tablets; apenas 19% participam dessas atividades entre três a sete vezes por semana com foco educativo.

Crianças saem menos de casa

Apenas 37% das famílias relatam realizar atividades ao ar livre regularmente – como caminhadas ou brincadeiras – um número abaixo da média global de 46%.

Cerca de 29% afirmaram nunca participar desse tipo atividade ou fazê-lo menos frequentemente do que uma vez por semana.

No entanto, o estudo ressalta que acesso à atividades externas como brincadeiras ao ar livre ou visitas culturais são “experiências fundamentais” para promover exploração ambiental além do desenvolvimento físico/cognitivo/socioemocional das crianças.
Essas experiências contribuem significativamente para criatividade socialização além da resolução criativa problemas.
A análise sugere possíveis barreiras relacionadas ao “custo”, “tempo” disponível” ou até mesmo “equipes esportivas locais” disponíveis.

Por isso Tiago Bartholo defende que práticas esportivas devem começar dentro das escolas pois são essenciais para promover desenvolvimento saudável.
“Participar regularmente atividades físicas está associado melhores indicadores saúde física mental impacta positivamente na cognição memória operacional.”

No Brasil famílias reportam menor frequência outras interações estimuladoras desenvolvimento infantil tais como cantar recitar poesias rimas infantis desenhar pintar brincar faz-de-conta contar histórias fora livros.

Ouvir a criança

Cerca de 56% das famílias afirmaram conversar frequentemente sobre emoções com suas crianças entre três sete dias semanalmente .

No entanto essas interações ocorrem com menor frequência comparado à média global onde essa taxa chega até %76 .

O levantamento mostra importância diálogo emocional durante primeira infância compartilhamento materiais resolução conflitos são oportunidades valiosas aprendizagem social construindo relacionamentos saudáveis.

Domínios relacionados empatia apresentaram resultados positivos superando médias internacionais atribuição emoções atingindo pontuação média %501 identificação emoções %491.

Funções executivas

O estudo avaliou funções executivas cognitivas permitindo planejamento foco atenção memorização gestão multitarefa.

A memória trabalho capacidade armazenar manipular informações apresentou diferenças marcantes conforme nível socioeconômico sendo observado variação notável %39 entre grupos altos baixos considerados preocupantes .

Médias brasileiras nos domínios memória trabalho controle inibitório flexibilidade mental estão aquém médias internacionais exibindo diferenças moderadas grandes significativas estatisticamente .

OCDE

Atualmente Estudo Internacional Aprendizagens Bem-estar Primeira Infância encontra-se segundo ciclo incluindo países como Azerbaijão Bélgica China Coreia Sul Emirados Árabes Unidos Holanda Malta Inglaterra .

Brasil destacou-se único país América Latina participando pesquisa OCDE .

Levantamento brasileiro contou apoio consórcio instituições liderado Fundação Maria Cecília Souto Vidigal .

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